Imagine pagar até três vezes mais caro pelo mesmo produto, dependendo apenas da hora da compra. No mercado de energia elétrica, isso acontece todos os dias. E a maioria das empresas nem percebe.
Para consumidores do Grupo A, empresas atendidas em média ou alta tensão, a energia tem preços diferentes ao longo do dia. Durante três horas específicas, chamadas de horário de ponta, a tarifa sobe drasticamente. Em consequência, empresas que concentram operação nesse período pagam muito mais pela mesma energia.
Neste artigo, explicamos o que é o horário de ponta, quanto ele custa de verdade e quais estratégias reduzem esse impacto na fatura da sua empresa.
O que é o horário de ponta
O horário de ponta é um período de três horas diárias consecutivas em que a tarifa de energia fica mais cara. Cada distribuidora define esse período com base na curva de carga do seu sistema elétrico. A ANEEL aprova essa definição para toda a área de concessão, conforme a Resolução Normativa nº 1.000/2021.
Na maioria das distribuidoras, o horário de ponta ocorre entre 17h30 e 21h. Na Enel SP, por exemplo, ele vai das 17h30 às 20h30. Em outras distribuidoras, das 18h às 21h. Por isso, o primeiro passo é sempre verificar o horário exato na fatura da sua empresa.
O horário de ponta não se aplica aos sábados, domingos e feriados nacionais definidos pela ANEEL. Portanto, empresas que operam nesses dias consomem energia com tarifa fora de ponta o dia inteiro.
Além disso, existe o horário fora de ponta. Ele reúne todas as demais horas do dia, as 21 horas complementares. Nesse período, a tarifa é significativamente menor, porque a rede elétrica opera com folga.
Por que a energia custa mais caro nesse período
A lógica do horário de ponta reflete o comportamento do sistema elétrico nacional. No início da noite, o consumo dispara: as pessoas chegam em casa, acendem luzes, ligam chuveiros e equipamentos. Simultaneamente, o comércio continua aberto e a iluminação pública entra em operação.
Para atender esse pico, o sistema aciona usinas de geração mais caras. Esse custo adicional se reflete na tarifa. Dessa forma, a tarifa de ponta cumpre duas funções: cobrir o custo real da geração no pico e desestimular o consumo nesse período.
O sinal de preço funciona como instrumento de gestão da rede. Ao tornar a energia mais cara no pico, as distribuidoras incentivam as empresas a deslocar o consumo para períodos de menor demanda. Em consequência, o sistema opera com mais equilíbrio e menos risco de sobrecarga.
Quanto custa: a diferença real entre ponta e fora de ponta
A diferença de preço entre os dois períodos é expressiva. O acréscimo no horário de ponta pode chegar a três vezes o valor cobrado fora de ponta, dependendo da distribuidora. Tanto a TE (Tarifa de Energia) quanto a TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) sobem no período de ponta.
A TUSD, aliás, apresenta o aumento mais acentuado. Isso ocorre porque a rede de distribuição é justamente a parte do sistema que mais sofre sobrecarga no horário de pico.
Vamos a um exemplo prático. Considere uma empresa que consome 10.000 kWh por mês no horário de ponta. Se a tarifa de ponta custar o triplo da tarifa fora de ponta, esse consumo custa o equivalente a 30.000 kWh fora de ponta. Em outras palavras: a empresa paga por 20.000 kWh que não consumiu, apenas pelo horário escolhido.
Multiplicado por 12 meses, esse sobrecusto se torna relevante. Portanto, entender e gerenciar o consumo na ponta é uma das alavancas mais diretas de redução de custo energético.
Tarifa Azul ou Verde: a escolha muda o impacto da ponta
A modalidade tarifária define como a empresa paga pela ponta. As duas opções principais para o Grupo A são a tarifa Azul e a tarifa Verde.
Na tarifa Verde, a empresa paga uma única tarifa de demanda. No entanto, o consumo no horário de ponta custa muito mais caro. Essa modalidade é indicada para empresas com capacidade de modulação, ou seja, que conseguem reduzir ou parar a operação no horário de ponta.
Na tarifa Azul, a empresa contrata duas demandas: uma para ponta e outra para fora de ponta. O consumo na ponta também é mais caro, mas em proporção menor que na Verde. Por isso, ela é indicada para operações contínuas, que não conseguem parar no horário de ponta.
A escolha correta depende do perfil de consumo real da empresa. De fato, a análise da modalidade tarifária é um dos itens centrais de qualquer diagnóstico energético bem feito.
Seis estratégias para reduzir o impacto do horário de ponta
A boa notícia é que o custo da ponta é gerenciável. As estratégias abaixo funcionam de forma isolada ou combinada, dependendo do perfil da operação.
1. Deslocar cargas flexíveis
Identifique processos que não precisam rodar no horário de ponta. Por exemplo: bombeamento de água, produção de gelo, carregamento de baterias e processos térmicos com inércia. Em seguida, reprograme esses processos para o período fora de ponta. O custo cai sem qualquer impacto na operação.
2. Modular a produção
Empresas com flexibilidade produtiva podem reduzir o ritmo durante as três horas de ponta. Além disso, podem antecipar processos intensivos em energia para o período da tarde. Essa modulação exige planejamento, mas gera economia direta e mensurável.
3. Revisar a modalidade tarifária
Como vimos, a escolha entre Azul e Verde muda o custo total. Uma análise dos últimos 12 meses de consumo revela qual modalidade é mais econômica para o perfil real da empresa. Essa revisão não exige investimento, apenas análise técnica especializada e solicitação à distribuidora.
4. Monitorar o consumo em tempo real
Sem medição, não há gestão. A telemetria permite acompanhar o consumo por horário e identificar exatamente quais cargas operam na ponta. A partir daí, as decisões de deslocamento e modulação deixam de ser suposições e passam a ser baseadas em dados.
5. Avaliar o Mercado Livre de Energia
No Ambiente de Contratação Livre, a empresa negocia o preço da energia diretamente com fornecedores. No entanto, as regras de ponta e fora de ponta da distribuidora continuam valendo para o uso da rede. Portanto, a migração reduz parte do custo, mas não elimina a necessidade de gestão do horário de consumo.
6. Avaliar adoção de BESS
A adoção de armazenamento de energia por baterias (BESS), pode ser uma solução viável para determinados perfis de consumidores dependendo do seu comportamento de consumo e das tarifas a que está sujeito. Com essa solução, é possível carregar o BESS (com a energia da rede ou mesmo com uma usina solar fotovoltaica) no horário fora de ponta e descarregar no horário de ponta. Assim, a operação pode continuar funcionando e sendo alimentada exclusivamente pela energia armazenada nas baterias.
Conclusão
O horário de ponta é um dos componentes mais impactantes da fatura de energia do Grupo A. Três horas por dia concentram um sobrecusto que pode chegar ao triplo da tarifa normal. Ainda assim, a maioria das empresas não sabe quanto consome nesse período e nem o que isso custa por ano.
A gestão do horário de ponta começa com uma pergunta simples: quanto da sua operação roda entre 17h30 e 21h? A resposta define o tamanho da oportunidade. E, na maioria dos casos, ela é maior do que o gestor imagina.
Sua empresa conhece o próprio perfil de consumo por horário? Se não, esse é o ponto de partida para transformar três horas caras em economia real.
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Sobre o autor
Roger Carneiro é fundador da Ominira Energia e especialista em gestão ativa de energia. Engenheiro com certificação ISSO 50001, atua há mais de cinco anos apoiando empresas do varejo, mineração e indústria a reduzirem custos com energia de forma independente. Entre os clientes atendidos estão Grupo Pão de Açúcar, Oxxo, Asun, Gold Diesel e GMX Gold.