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Risco de contraparte no mercado livre: como avaliar a saúde da sua comercializadora antes que ela vire manchete

O Mercado Livre de Energia oferece economia e previsibilidade. No entanto, ele traz um risco que o mercado cativo não tem: o risco de contraparte. Em outras palavras, o risco de que a comercializadora que fornece energia à sua empresa não honre o contrato.

Esse risco deixou de ser teórico. Nos últimos anos, comercializadoras que pareciam sólidas entraram em recuperação judicial. E cada uma dessas quebras deixou clientes e credores expostos a prejuízos relevantes.

Neste artigo, explicamos o que é o risco de contraparte, por que ele cresceu no mercado brasileiro e, o mais importante, como avaliar a saúde da sua comercializadora antes que ela vire manchete.

O que é risco de contraparte no Mercado Livre

No Ambiente de Contratação Livre (ACL), sua empresa não compra energia da distribuidora. Em vez disso, ela contrata uma comercializadora, que negocia e fornece a energia por meio de contratos de médio e longo prazo.

O risco de contraparte é o risco de que essa comercializadora não cumpra o contrato. Isso pode acontecer por diversos motivos. Por exemplo: dificuldade financeira, inadimplência com a Câmara de Comercialização de Energia (CCEE) ou pedido de recuperação judicial.

Quando a comercializadora falha, o problema não fica restrito a ela. Na prática, o cliente pode precisar recomprar energia no mercado de curto prazo, muitas vezes a preços elevados. Além disso, pode se tornar credor em um processo de recuperação judicial, com baixa perspectiva de recuperar valores.

Por que esse risco cresceu no Brasil

O risco de contraparte sempre existiu no ACL. No entanto, uma combinação de fatores o intensificou nos últimos anos. Entender esses fatores ajuda a dimensionar o problema.

O primeiro fator é a volatilidade do preço da energia. A adoção do PLD horário, o Preço de Liquidação das Diferenças calculado hora a hora, aproximou o Brasil das práticas internacionais. Por outro lado, ela elevou a exposição financeira de comercializadoras sem estruturas robustas de proteção.

O segundo fator é estrutural. Muitas comercializadoras firmaram contratos de venda em um cenário de preços baixos. Quando o custo da energia subiu no mercado de curto prazo, esses contratos se tornaram economicamente inviáveis. Em consequência, algumas empresas não conseguiram honrar seus compromissos.

O terceiro fator é o desenho do próprio mercado. O ACL não tem uma contraparte central que garanta as operações. Quando uma comercializadora fica inadimplente, o mecanismo de rateio distribui o prejuízo entre os demais participantes. Dessa forma, a quebra de uma empresa pode gerar efeito cascata sobre outras.

Esse cenário não é hipótese. Ao longo de 2024, 2025 e 2026, o setor acompanhou uma sucessão de pedidos de recuperação judicial de comercializadoras, algumas delas pioneiras e consideradas sólidas. O rombo acumulado no mercado, segundo levantamentos do setor, já supera a casa de bilhões de reais.

O que acontece com o cliente quando a comercializadora quebra

Muitos gestores acreditam que a quebra da comercializadora é problema apenas dela. Isso não é verdade. O cliente sofre consequências diretas e concretas.

Em primeiro lugar, existe o risco de desabastecimento contratual. Se a comercializadora para de fornecer, a empresa precisa buscar energia em outro lugar, muitas vezes às pressas e a preço de mercado de curto prazo. Esse preço pode ser muito superior ao contratado.

Em segundo lugar, existe o risco de crédito. Se a empresa pagou adiantado ou tem valores a receber da comercializadora, ela vira credora no processo de recuperação judicial. E credores de recuperação judicial costumam recuperar apenas uma fração do valor, quando recuperam.

Em terceiro lugar, existe o risco operacional junto à CCEE. A depender da estrutura contratual, a inadimplência da comercializadora pode gerar complicações na contabilização e liquidação das operações da própria empresa cliente.

Cinco sinais para avaliar a saúde da sua comercializadora

A boa notícia é que o risco de contraparte é gerenciável. Não é possível prever com certeza qual empresa terá dificuldade. No entanto, é possível monitorar sinais que indicam fragilidade. Veja os cinco principais.

1. Saúde financeira e capitalização

Avalie os balanços da comercializadora, quando disponíveis. Prejuízos recorrentes, patrimônio líquido negativo e alto endividamento são sinais de alerta. Empresas bem capitalizadas resistem melhor à volatilidade do preço da energia. Por isso, a solidez financeira é o primeiro filtro.

2. Histórico de adimplência na CCEE

A CCEE publica informações sobre a situação dos agentes. Verifique se a comercializadora tem histórico de inadimplência ou penalidades. Um agente com pendências recorrentes na CCEE merece atenção redobrada.

3. Estrutura de garantias oferecida

Comercializadoras sólidas oferecem garantias contratuais, como fiança bancária, seguro-garantia ou lastro em geração própria. Portanto, pergunte quais garantias a empresa oferece. A ausência de qualquer garantia é, por si só, um sinal de risco.

4. Tempo de mercado e reputação

O tempo de atuação não é garantia absoluta, já que empresas antigas também quebraram. Ainda assim, o histórico importa. Avalie a reputação da comercializadora junto a outros clientes, a consistência da operação e a transparência das informações que ela fornece.

5. Concentração e diversificação do contrato

Depender de uma única comercializadora para todo o volume aumenta a exposição. Algumas empresas diversificam contratos entre fornecedores para reduzir o risco. Dessa forma, a quebra de um fornecedor não compromete todo o abastecimento.

Risco de contraparte é item de matriz de risco corporativo

Aqui está a mudança de mentalidade mais importante. Muitas empresas tratam a escolha da comercializadora como uma decisão de compras, foco no menor preço. No entanto, essa é uma decisão de gestão de risco.

O contrato de energia costuma ser um dos maiores compromissos financeiros de uma operação industrial ou comercial. Portanto, a contraparte desse contrato deveria constar na matriz de risco corporativo, ao lado de fornecedores críticos, clientes concentrados e riscos regulatórios.

Na prática, isso significa três coisas. Primeiro: avaliar a contraparte antes de contratar. Segundo: monitorar a saúde dela durante todo o contrato. Terceiro: ter um plano de contingência caso os sinais de alerta apareçam. Empresas que fazem isso não dependem de sorte.

Conclusão

O Mercado Livre de Energia continua sendo uma excelente decisão para a maioria das empresas de grande consumo. A economia é real e a previsibilidade é valiosa. No entanto, o risco de contraparte é parte inseparável desse ambiente, e ignorá-lo é uma escolha perigosa.

A boa gestão não elimina o risco. Ela o torna visível, mensurável e gerenciável. A empresa que avalia a saúde da comercializadora, monitora os sinais e mantém um plano de contingência transforma um risco oculto em um risco controlado.

Você sabe qual é a real situação financeira da comercializadora que fornece energia à sua empresa? Se a resposta for ‘não’, esse é o momento de incluir essa pergunta na sua matriz de risco.

 

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Sobre o autor

Roger Carneiro é fundador da Ominira Energia e especialista em gestão ativa de energia. Engenheiro com certificação ISSO 50001, atua há mais de cinco anos apoiando empresas do varejo, mineração e indústria a reduzirem custos com energia de forma independente. Entre os clientes atendidos estão Grupo Pão de Açúcar, Oxxo, Asun, Gold Diesel e GMX Gold.

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