Existe um erro na fatura de energia que passa despercebido por anos. Ele não gera multa visível. Não dispara alerta. Não aparece em vermelho na conta. Ainda assim, silenciosamente, ele infla o custo de energia mês após mês.
Esse erro é a demanda contratada mal dimensionada. E ele afeta a maioria das empresas do Grupo A no Brasil.
Neste artigo, explicamos o que é a demanda contratada, por que o dimensionamento errado custa tão caro e como sua empresa pode corrigir esse problema. O melhor de tudo: a correção quase nunca exige investimento em equipamentos.
O que é demanda contratada
A demanda contratada é a potência elétrica, medida em quilowatts (kW), que a distribuidora reserva para a sua empresa. Em outras palavras, é a capacidade que a concessionária se compromete a manter disponível, independentemente de a empresa usá-la ou não.
Apenas consumidores do Grupo A contratam demanda. Esse grupo reúne as empresas atendidas em média ou alta tensão, acima de 2,3 kV. Na prática, ele inclui indústrias, supermercados, mineradoras, shoppings e grandes operações comerciais.
É importante separar dois conceitos que muita gente confunde. O consumo, medido em kWh, é a energia que a empresa efetivamente usa ao longo do mês. A demanda, medida em kW, é a potência máxima exigida da rede em um instante. São grandezas diferentes, com cobranças diferentes na fatura.
A distribuidora mede a demanda em intervalos de 15 minutos. Ao fim do ciclo, ela registra o maior pico do período. Esse pico determina a demanda medida do mês.
Por que o dimensionamento errado custa tão caro
O erro de demanda contratada acontece em duas direções opostas. Ambas geram custo. No entanto, uma é muito mais comum e mais silenciosa que a outra.
Erro 1 — Superdimensionamento (o erro silencioso)
O superdimensionamento é o erro mais frequente e mais difícil de perceber. Nesse caso, a empresa contrata mais demanda do que realmente usa.
O problema é simples: a empresa paga pela demanda contratada todos os meses, mesmo sem usá-la. Portanto, uma demanda contratada acima da necessidade real funciona como um pagamento recorrente por capacidade ociosa.
Esse erro não gera multa. Não dispara alerta na fatura. Por isso, ele passa despercebido por anos. A empresa simplesmente paga a mais, todos os meses, sem nunca questionar o valor.
Vários cenários levam ao superdimensionamento. Por exemplo: a empresa contratou demanda alta antecipando uma expansão que não aconteceu. Ou substituiu equipamentos antigos por modelos mais eficientes e nunca revisou o contrato. Ou ainda, contratou com margem de segurança exagerada por precaução.
Erro 2 — Subdimensionamento (a multa por ultrapassagem)
O subdimensionamento é o erro oposto. Nesse caso, a empresa contrata menos demanda do que precisa. Em consequência, ela ultrapassa o limite contratado nos picos de operação.
A regulamentação prevê uma margem de tolerância para a ultrapassagem. Para os consumidores dos do Grupo A, a tolerância é de 5% da demanda contratada.
Quando a demanda medida ultrapassa essa margem, a distribuidora aplica a multa por ultrapassagem. E essa multa é pesada: a tarifa de ultrapassagem costuma equivaler ao dobro da tarifa normal de demanda. Portanto, cada pico não planejado custa caro.
Diferentemente do superdimensionamento, a multa por ultrapassagem aparece na fatura. Geralmente, ela surge com a nomenclatura ‘demanda de ultrapassagem’ ou ‘demanda contratada ultrp’. Ainda assim, muitas empresas não identificam a causa e pagam a multa repetidamente.
A modalidade tarifária influencia diretamente o custo
O impacto da demanda contratada depende também da modalidade tarifária da empresa. Os consumidores do Grupo A escolhem entre duas opções principais: a tarifa Azul e a tarifa Verde.
Na tarifa Verde, a empresa contrata um único valor de demanda. A cobrança da demanda é, portanto, mais simples de gerenciar. No entanto, o consumo no horário de ponta tem custo mais alto.
Na tarifa Azul, a empresa contrata dois valores de demanda: um para o horário de ponta e outro para fora de ponta. Essa modalidade aumenta a complexidade da gestão. Por outro lado, ela pode gerar economia para empresas com perfil de consumo adequado.
A escolha errada da modalidade encarece a fatura. Por isso, a análise da modalidade tarifária faz parte de qualquer revisão séria da demanda contratada.
Como dimensionar a demanda contratada corretamente
O dimensionamento correto da demanda não é um chute. Ele segue um método baseado em dados reais de consumo. Veja as etapas principais:
- Coletar o histórico de demanda medida dos últimos 12 meses, no mínimo. Esse período captura as variações sazonais da operação.
- Identificar o pico real de demanda registrado nesse período. Esse valor revela a capacidade que a empresa efetivamente exige da rede.
- Analisar a frequência e a causa dos picos. Picos isolados e evitáveis pedem ajuste operacional, não aumento de demanda.
- Definir a demanda contratada com uma margem de segurança adequada: nem exagerada, nem insuficiente.
- Avaliar se a modalidade tarifária atual (Azul ou Verde) é a mais econômica para o perfil de consumo.
Esse ajuste, na maioria dos casos, reduz a fatura sem qualquer investimento em equipamentos. Trata-se apenas de alinhar o contrato à realidade da operação. De fato, é uma das ações de maior retorno em gestão de energia.
Vale ressaltar outro ponto de grande atenção para os consumidores: além do ajuste de demanda, existe uma oportunidade tributária frequentemente ignorada. Algumas distribuidoras cobram ICMS sobre a demanda não utilizada, o que é uma cobrança que vários consumidores contestam com sucesso na Justiça. Vale também avaliar esse ponto com o suporte jurídico e de gestão especializados.
Por que a gestão contínua faz a diferença
Dimensionar a demanda corretamente uma vez não basta. A operação muda ao longo do tempo. A empresa adquire equipamentos. Altera turnos. Expande ou reduz a produção. Por isso, a demanda ideal de hoje pode não ser a ideal daqui a um ano.
É aqui que a gestão ativa de energia se diferencia da gestão pontual. Em vez de revisar a demanda apenas uma vez, a empresa a monitora continuamente. Dessa forma, ela ajusta o contrato sempre que a operação muda e nunca volta a pagar a mais sem perceber.
A metodologia da ISO 50001, adotada pela Ominira, estrutura exatamente esse processo. Ela transforma o controle de demanda em um ciclo contínuo de medição, análise e ajuste. Assim, o resultado se mantém ao longo do tempo, e não apenas no mês da revisão.
Conclusão
A demanda contratada errada é um dos erros mais caros e mais silenciosos da fatura de energia. No superdimensionamento, a empresa paga por capacidade que não usa. No subdimensionamento, ela paga multas por ultrapassagem. Em ambos os casos, o dinheiro escapa todos os meses.
A boa notícia é que a correção é direta e, geralmente, sem investimento. Ela depende apenas de análise de dados e de ajuste contratual. Por isso, revisar a demanda contratada é um dos primeiros passos que recomendamos a qualquer empresa.
Você sabe se a demanda contratada da sua empresa está dimensionada corretamente? Se a resposta for ‘não tenho certeza’, provavelmente há dinheiro escapando da sua fatura agora mesmo.
Quer saber se a demanda contratada da sua empresa está correta?
Fale com a Ominira Energia – (11) 91000-5046 – ominiraenergia.com.br
Sobre o autor
Roger Carneiro é fundador da Ominira Energia e especialista em gestão ativa de energia. Engenheiro de Controle e Automação com certificação ISO 50001, atua há mais de cinco anos apoiando empresas do varejo, mineração e indústria a reduzirem custos com energia de forma independente. Entre os clientes atendidos estão Gupo Pão de Açúcar (GPA), Oxxo, Asun, Gold Diesel e GMX Gold.